A Musica Brasileira Perde Uma De Suas Vozes Mais Poderosas

SIM NEWS

A MÚSICA BRASILEIRA PERDE ELZA SOARES, UMA DE SUAS VOZES MAIS PODEROSAS

Considerada uma das maiores divas da música brasileira, Elza Soares morreu hoje, aos 91 anos, de causas naturais em sua casa no Rio de Janeiro. Famosa por sua voz rouca, teve uma vida intensa, marcada por tragédias e reviravoltas.

Nascida em uma família humilde no bairro de Padre Miguel, no Rio de Janeiro, começou a cantar com o pai, que tocava violão, e teve sua infância interrompida aos 12 anos, quando foi obrigada pela família se casar com um homem que a teria  violado. Sofrendo com violência doméstica e abusos sexuais, teve seu primeiro filho aos 13 anos de idade e o segundo pouco tempo depois. Ambos morreram por doenças relacionadas à desnutrição. Elza teve outros seis filhos: João Carlos, Gerson (entregue para adoção), Gilson, que morreu em 2015, Sara e Manoel Francisco, apelidado de Garrinchinha, que morreu aos 9 anos de idade em um acidente de carro. Outra filha, Dilma, foi sequestrada quando tinha apenas um ano de idade. Elza só a reencontrou trinta anos depois.

Elza ficou viúva aos 21 anos e pouco tempo depois, em 1953, se inscreveu no programa Calouros em Desfile, comandado por Ary Barroso. Usando um vestido da mãe ajustado com alfinetes, foi recebida com gargalhadas pelo apresentador, que perguntou: “de que planeta você veio, minha filha?”, ao que Elza respondeu: “do mesmo planeta que o senhor, seu Ary, do planeta fome”. Após a apresentação, que levou a nota máxima do programa, Ary declarou que naquele momento nascia uma estrela.

As palavras principais da frase, Planeta Fome, viraram o título de seu último álbum. lançado em 2019 pela gravadora Deck Disc. As roupas alfinetadas que Elza usou em 1953 foram inspiração para o figurino da turnê do álbum.

No início da carreira, Elza se tornou crooner da Orquestra Garam Bailes, apresentando-se em casamentos, bailes e eventos sociais, e por várias vezes foi impedida de cantar em clubes que não admitiam uma cantora negra no palco.  Em 1959 foi contratada pela Rádio Vera Cruz e em 1960 atuou no Festival Nacional da Bossa Nova; dois anos depois foi a representante brasileira na Copa do Mundo do Chile.

O racismo esteve vergonhosamente presente em muitos momentos de sua carreira. Antes que pudesse gravar seu primeiro álbum, Elza chegou a ser barrada pelos executivos da gravadora RCA Victor, que se mostraram surpresos ao descobrir que ele era negra. Um tempo depois, com a ajuda do compositor Moreira da Silva, gravou o primeiro compacto com as músicas Brotinho de Copacabana e Pra Que É Que Pobre Quer Dinheiro? pelo selo independente Rony.

Não tardou para que Elza assinasse seu primeiro contrato com uma grande gravadora, a Odeon, por onde lançou o disco de estreia, Se acaso você chegasse.

Em 1962, Elza conheceu o jogador Mané Garrincha, por quem se apaixonou. Na época o jogador ainda era casado, mas logo se separou e passou a viver com a cantora, que foi alvo dos fãs e da imprensa que a acusavam ter acabado com o casamento do ponta-direita. Sempre provocativa, Elza gravou a música Eu Sou A Outra, que causou reações fortes até mesmo em radialistas que quebravam seus discos.

Nessa mesma época o casal sofreu uma série de ameaças e ataques anônimos, além de uma invasão de sua casa pelos policiais do DOPS. Embora ainda hoje não se saiba o motivo exato dessa violência, ela sempre achou que poderia ser fruto de sua amizade com o presidente Juscelino Kubistchek, e uma a participação na gravação de uma música pró João Goulart ao lado de vários outros artistas.

O casamento chegou ao fim em 1982, por conta de constantes agressões, crises de ciúmes, traições e o alcoolismo de Garrincha. Dessa experiência surgiu a canção Maria da Vila Matilde, onde Elza canta “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Toda essa história veio a público em detalhes no livro Minha Vida com Mané, lançado por Elza em 1969.

Após a separação e um período em que a relação com sua gravadora se deteriorava, Elza pensou em abandonar a carreira, mas foi acolhida por Caetano Veloso, que a convidou para gravar a música Língua, presente no álbum Velô, de 1984. Cultuada por uma nova geração de artistas, realizou uma parceria com Cazuza na faixa Milagres e participou de um disco do cantor carioca Lobão. Planejou também um projeto com o titã Branco Mello, que nunca foi realizado.

No início dos anos 90 Elza enfrenta outra fase turbulenta, ao se mudar para os Estados Unidos, onde se envolveu com uma seita religiosa, foi vítima de empresários que subtraíram dinheiro de bancos e foi acusada de ser a golpista. Toda essa situação foi esclarecida pela cantora que se defendeu em sua biografia, publicada em 2018, com autoria do jornalista Zeca Camargo.

Em 1997 lança Trajetória, seu primeiro álbum em quase uma década, mas foi no início dos anos 2000 que ela voltou a receber o merecido reconhecimento. A rede britânica BBC a considerou a voz brasileira do milênio. Elza se apresentou no Royal Albert Hall em Londres, ao lado de nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Virginia Rodrigues e Chico Buarque.

Sempre ativa, desafiadora e inovadora, nos anos posteriores Elza voltou às turnês, lançou discos, recebeu vários prêmios, incluindo um Grammy Latino, realizou várias parcerias, foi tema de documentários, experimentou novos estilos, e fez um show chamado A Voz e a Máquina em que era acompanhada apenas por dois DJs. Em 2015 lança A Mulher do Fim do Mundo, o primeiro disco de sua carreira só com músicas inéditas que recebeu elogios da crítica de várias partes do planeta.

A quarta edição da SIM São Paulo, em 2016, teve a honra de contar com a participação de Elza Soares no show de abertura, ao lado  de Mahmundi e Liniker e Os Caramelows, em uma noite inesquecível acontecida no Auditório Ibirapuera.

Em 2018, Elza lançou o álbum Deus É Mulher e um ano depois veio Planeta Fome, seu último trabalho, considerado um dos melhores álbuns do ano e que rendeu mais uma indicação ao Grammy Latino pela melhor canção em língua portuguesa, pela faixa Libertação.

Nos últimos anos a saúde de Elza se deteriorou, mas isso não a impediu de continuar nos palcos. Sempre foi impressionante olhar para aquela figura que, mesmo sentada, continuava com a voz forte, tanto em seu timbre quanto em suas mensagens.

Com sua morte, Elza deixa um legado que vai além da música. Sempre à frente de seu tempo, ela foi revolucionária, visionária, um ícone da negritude, da liberdade de expressão, da provocação, da determinação, perseverança, resiliência e acima de tudo do poder e da força feminina.

 

OUÇA AQUI AS MÚSICAS DE ELZA SOARES:

 

 



Compartilhar no facebook



Compartilhar no twitter



Compartilhar no linkedin



Compartilhar no whatsapp



Compartilhar no email

Categorias:

 

Comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *



+ SIM NEWS