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“Não sou vanguardista de fim de semana”, diz Fred Finelli, criador da SubRecs

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POR RODRIGO CARNEIRO

Fred Finelli é o responsável pelo selo fonográfico Submarine Records, casa de gente como Hurtmold, Elma, The Eternals, São Paulo Underground, MDM, Bodes & Elefantes, Auto, Objeto Amarelo, Diagonal e Rob Mazurek, e pela agência de booking Norópolis, que já trouxe ao Brasil, entre outros, Roscoe Mitchell, Anthony Braxton, Tortoise, Pharoah Sanders, Matana Roberts, Kevin Drumm, Tim Kinsella, Laetitia Sadier, Phil Cohran, Lichens, Joan of Arc, Skull Sessions e Alan Bishop & Richard Bishop. Nesta entrevista, Fred comenta os anos de atuação no mercado da música, fala da ligação estreita com o Hurtmold, da preferência pelas sonoridades não convencionais e muito, mas muito mais . “O selo está aqui dentro de mim, não é meu hobby, não sou vanguardista de fim de semana”, avisa.

SIM São Paulo – Como e quando começa a Submarine Records? Já são 15 anos de atividade, né?

Fred Finelli – Isso! Mais precisamente chegamos aos 16 anos de atividade agora em 2014. A Submarine começou baseada numa ideia de colocar na rua produções musicais que eu gostava. Era 1996/97, eu era “colaborador” e editava também um zine, o Needle, e estava muito envolvido com o mundo da música independente/alternativa, punk rock, o hardcore. Louco com a constante troca de informações, o vai e vem de fitas cassete, vinis e CDs independentes. Tudo isso era feito através de cartas, a noção de tempo era muito outra. Às vezes, você levava dois meses para, enfim, conhecer uma banda. Lembro de fazer divulgação de shows por correspondência., mala direta em carta social (na época custava um centavo cada). Essa mala direta era construída de forma impressa e manual. Ela ficava na banquinha de materiais ou na porta dos locais de shows pra quem quisesse se cadastrar e daí eu levava pra casa aquela papelada e “passava a limpo”, tentando entender as letras das pessoas.

Frequentando mais e mais shows na época, aumentando os contatos e amizades, com a cabeça fundida pelo Fugazi/Dischord Records e, logo na sequência, pela cena de Chicago (Tortoise, Isotope 217, Chicago Underground, The Eternals), a coisa foi se formatando na minha cabeça. Em 1998, eu dividia meu dia entre a faculdade de comunicação, o trampo de funcionário público e ainda tentando entender como era ser pai aos 22 anos. E, em volta disso tudo, uma energia enorme pra “fazer coisas” (relacionadas a esse mundo da música independente) misturado também à uma certa inocência/romantismo em alguns sentidos (coisa de quem está tateando as coisas na vida, se apaixonando a todo instante) e isso, de certa forma, foi uma mola propulsora para dar vários passos.

Nessa época eu já estava há alguns aninhos comparecendo a shows, escrevendo resenhas de cassetes/CDs/vinis (que, claro, lendo hoje eu morro de rir de muita coisa que eu falei, isso faz quase 20 anos, mas acho que exatamente isso fez a coisa andar de forma natural e simples também). O sentimento principal era, “porra, tomara que mais gente ouça, mais gente goste, e, quem sabe, uma hora a gente vê isso ao vivo”. A cultura de ir nos shows era tudo, eu tenho algumas recordações que sempre deixam meus olhos brilhando. A sensação de ir num show e conseguir pegar uma demo tape e depois ouvir, trazia uma sensação indescritível, era muito bom! E até hoje quando trombo algumas pessoas, elas falam: “caralho, Fred, ouvi tal banda por causa de uma resenha ali no Needle”. Daí acho que no fim valeu muito a pena, e os zines foram uma escola maravilhosa, onde fiz muitas amizades por carta. Em 2004, se não me engano, eu estava na galeria do rock e entrou na loja o Oto (Força Macabra, banda finlandesa), eu não o reconheci visualmente até ele se apresentar como tal e eu virei pra ele e disse: “porra, lembra de uma entrevista tal assim assado de, sei lá, 1997? Então, aquela carta lá era de um zine que eu colaborava!”. Você tinha que ver a cara dele! Isso não tem preço. Tenta imaginar uma entrevista, por carta, pra Finlândia. O tempo que não demorou o processo todo (risos). Era muito carinho com essa coisa toda, não tava separado da sua vida, blocado, você já estava ali vivendo aquilo. Então acho que a coisa passa por aí, um envolvimento que foi rolando, assistindo shows, fazendo amizades, a coisa dos zines, e ainda, de leve, ajudando a promover shows independentes, ajudando a divulgar e daí a ideia de ter um selo pra tentar editar algumas coisas.

No site, o texto de apresentação da Submarine Records diz que o selo trabalha com artistas diversificados que, cada um a seu estilo, exprimem bem o direcionamento do selo. Qual seria este direcionamento?

A Submarine, acredito, desde o início sempre teve a característica de não rotular e/ou se “especializar” em determinada estética, direcionamento musical. Se você escuta o primeiro lançamento do selo, que é uma coletânea, já é perceptível que não é um registro ou documento de um estilo musical. Ali eu já estava “falando” sobre música (ou pelo menos tentando). E pegando o catálogo do selo, que hoje está com 25 títulos lançados, essa ideia está bem clara, espero. De Hurtmold a Elma, Againe a The Eternals, São Paulo Underground a MDM, Bodes & Elefantes a Auto, Objeto Amarelo a Diagonal, Rob Mazurek e sua Skull Sessions. Estamos falando de música diversa e poderosa (ao menos, pra mim).

As trajetórias do selo e do Hurtmold estão intimamente ligadas. Pode falar sobre isso?

Claro que posso falar. A história do selo propriamente dito se inicia em Belo Horizonte a partir do momento que eu começo a ter mais contato com selos nacionais e sul-americanos. Beleza, a gente tinha informações, catálogos e discos de selos de fora da América do Sul (Dischord, SST, K Records, Cruz, Allied, Dr. Strange, Lookout, Touch and Go, Slowdime, Thrill Jockey, Sub Pop, Fat, Revelation, Jade Tree, Polyvinyl, Drag City, Matador, entre várias outras.), mas não era a mesma coisa de você trocar uma ideia direta com quem levava o selo, a proximidade e tudo. Afinal a internet ainda não estava tão presente.

E por aqui eu já tinha uma relação muito próxima com o pessoal da Spicy (selo do Rafael Crespo e do Marcelo Fusco), responsável por editar CDs, cassetes e vinis de bandas como Garage Fuzz, Againe, Pin Ups, Polara etc. Na Argentina eu tinha contato com um pessoal muito ativo naqueles tempos: a Sniffing, a 72 Records, o Nekro do Fun People, o Guido. O trabalho da 72 Records me marcou muito. Tinha umas bandas “esquisitas” que eu adorava e a parte estética dos títulos era muito foda. E por aqui a Spicy era o que eu curtia, por que eu gostava das bandas e também eram bons nas artes dos discos, catálogos, fora a energia em torno de tudo, eu adorava aquilo, até hoje tenho algumas embalagens de discos da Spicy enviadas pelo correio, em caixas de esfiha (risos).

Com isso, em 1998, bolei a ideia da Submarine Records, que começaria as atividades com uma coletânea com bandas nacionais que eu gostava e que não tinham nada lançado em CD e iria pinçar/convidar algumas bandas do exterior pra compor o lançamento. Fiz os contatos, juntei uma graninha pra masterizar/prensar e mandei bala.

Daí na virada de 1998/1999 recebia na minha casa 1000 cópias da coletânea “Some Songs, Some Places, Some Feelings”, o SUB001. Coletânea lançada, dei uma quota pra cada banda e o restante era vendido em shows e via correios por R$8. O sistema era daquele jeito punk que aprendemos, dinheiro escondido em carta registrada e envelope escuro. O dinheiro poderia ser colocado em papel carbono também pra ajudar a ficar ainda mais camuflado. Divulgação: Permuta com zines principalmente e flyers espalhados em correspondências. O tempo foi passando e comecei a receber um voluminho de pedidos pelo correio. Cada pacote que era feito e despachado era uma alegria imensa! Tipo, “porra, as pessoas estão querendo ouvir!” E naquele 1998/99 esta coletânea poderia ser considerada meio “tortinha”, já apontava para um caminho menos reto musicalmente e a minha ideia era tentar fugir das caixas de acrílico, coisa que eu nunca gostei nos CDs e acabamos também tendo uma certa identidade estética com os envelopes de papel. Enquanto a coletânea ia saindo, se espalhando, eu já estava sentindo que a coisa estava se viabilizando, o dinheiro investido na coletânea voltando e eu já podia pensar num próximo passo. De repente, em um primeiro artista, por assim dizer.

Em 1999, eu estava em São Paulo num final de semana e fui com o Fusco em um show na Pamplona. Ali dentro, o Mauricio [Takara] me tromba e fala “Fred, tá aqui a demo da minha banda nova, chama Hurtmold, ouve aí”. Eu conhecia o Mau mais como o irmão do Daniel [Ganjaman], e pelo fato de terem começado o Estúdio El Rocha (que foi e tem sido muito importante para a música independente nacional). O Ganja na época tocava no Page 4 (banda que saiu na coletânea da Submarine), Strada, Single Tree, entre outras várias. O Mauricio é o mais novo dos irmãos Sanches Takara, pequenino ali, era baterista do Small Talk e, se não me engano, era 1997, eu estava na produção de um show do Single Tree e o Mau foi com a banda pra Belo Horizonte de “mascote” e ele ficou na banquinha vendendo as demo tapes das bandas dele e dos irmãos.

Com a demo do Hurtmold na mão, voltei pra BH ouvindo a fitinha no busão. De repente um “fodeu” me atingiu a cabeça (risos). O Hurtmold também é de 1998 e era formado por membros ligados ao hardcore/punk rock e, por ironia do destino, estavam na mesma viagem musical que eu estava. Lembro que cheguei em BH e falei de imediato com o Fusco (Spicy) pelo telefone: “Cara, o Mauricio me passou a demo da banda nova dele, o Hurtmold, puta que pariu, é muito bom isso”. Daí já botei fogo no Fusco se ele não toparia lançar essa demo tape em parceria num formato em cassete prensadinho com a Sub. O Fusco já retornou positivamente e, passado um tempo, lançamos juntos (Submarine/Spicy) o cassete do Hurtmold, “3am: a fonte secou” (SUB002). Era a demo tape original, “Everyday Recording”, com mais quatro faixas novas, que deram o tom a este lançamento. Prensamos as fitinhas em fábrica, 300 cópias e vendíamos a três reais, mesmo esquema: correspondência, shows. E no mesmo ano o Hurtmold tocaria pela primeira vez em BH e tive a oportunidade de, enfim, vê-los em ação. Foi um dia muito foda. Uma molecada com muito apetite em cima do palco, se alternando nos instrumentos. O Mauricio nem tocava muita bateria na banda, ele tocava mais guitarra e o Chankas era o baterista. Sei que quem estava lá no Butecário esse dia saiu feliz, foi um belo show, as pessoas rodeando a banquinha comprando as fitinhas, era uma sensação maravilhosa de estar fazendo alguma coisa. A energia indo e voltando, era a certeza de que estávamos num caminho, do qual não dava pra saber, mas algo estava rolando. Virada de 1999 pra 2000, conversando com o Hurtmold, eles me disseram que estavam com o primeiro álbum em processo de gravação, pra mim seria o momento de, enfim, termos o primeiro debut CD no catálogo do selo. O Hurtmold estava voando, tocando frequentemente no circuito underground paulistano e já fazendo um segundo show em BH, numa situação maluca, que foi substituindo, aos 44 do segundo tempo, o Diagonal, que teve problemas e tiveram que abortar o show em BH. Lembro que liguei pro Mau, sei lá, dois dias antes do show e ele respondeu: “beleza, vamos nessa!”. Os caras se agilizaram, chegaram na rodoviária e eu, felizão, olhando pra cara deles, tipo, puta merda, esses moleques são demais. Show foda em BH, dueto de escaleta e o caralho, um cara junto com eles chamado Brian, que ajudava no palco e tirava fotos. Nessa época eu também fotografava e a gente logo já se enturmou trocando ideia de fotografia, pirando obviamente no Glen Friedman e no Pat Graham (risos).

Alguns meses depois fui pra São Paulo encontrar o Fusco novamente. Estávamos trabalhando no terceiro título da Submarine, que seria um compacto 7” da banda punk rock Againe, “Sem Açúcar”. Eu sempre fui fã do Againe ”- grupo no qual o Fusco tocava – e a Submarine lançou essas quatro músicas numa arte com capa silkada manualmente e carimbos, uns compactos com encarte, outros não, tudo meio errado no melhor estilo do Againe. Este era o SUB004. Em São Paulo, liguei pro Mauricio e marcamos na Spicy uma conversa sobre o primeiro disco do Hurtmold. Eu tinha falado com o Fusco sobre lançarmos juntos também o CD, mas na época a Spicy estava com outros títulos em marcha e daí o disco sairia pela Submarine apenas. O SUB005 “Et cetera”, do Hurtmold. A conversa na casa da Spicy foi bem engraçada pensando hoje. Acho que o Guilherme [Granado] também colou nessa conversa. Eu falando ali, os caras rebatendo, mas era uma coisa que, no fim, se resumiria assim: “beleza essa ideia toda, mas a gente já pode trampar, vai”. Sei que fechamos um corre legal, uma quota boa pro Hurtmold, que estava com o disco prontinho e a tentativa era sempre pensar em buscar equalizar tudo, de forma a ficar confortável pra todas as partes e irmos caminhando. E assim foi: 2000 saía o primeiro disco do Hurtmold. Do show em BH eu me lembro até hoje do clima, como queria ter isso registrado, mas é um ponto que eu pequei, praticamente não tenho registros dessa época. Foram dois shows em BH num fim de semana. O primeiro no Matriz, cheio, show poderoso e, pra variar, o Hurtmold já estava tocando quase metade do set de músicas novas (risos).

Lembro do Brian subindo no palco e dançando na frente dos caras. No dia seguinte um show num café, super pequeno, com uma janelona que dava pra rua e várias pessoas assistindo do lado de fora pela tal janela. Os caras tocando virados pra essas pessoas, lembrança foda. Esse café fazia shows mais acústicos de jazz e acho que quando o Bruno (dono do estabelecimento) viu o Hutmold chegando, ele ficou um pouco tenso. Cinco jovens com 20 anos, mais o Brian (imagina ele naquela época), a parafernália desorganizada que era (escaleta em sacola de supermercado, por exemplo, teclado Cassio enrolado num pano nojento) e a gente puxando as mesas do café pra colocar o teclado (pois, obviamente, não tinha estante pra isso) etc. Acho que o Bruno confiava do tipo, “ah, falei com o Fred durante a semana, vai dar tudo certo”. E como deu certo. As pessoas chaparam, o show foi bem legal e no final lembro da imagem do dono do café abraçando os moleques. Disco lançado e o Hurtmold começou a aparecer em algumas resenhas bem positivas do disco, convites para tocar em festivais e assim foi caminhando. Em 2002 lançamos o “Cozido” (SUB006), disco que definitivamente pra mim colocou o Hurtmold no caminho de terem uma “fita”, por assim dizer, começarem ali a buscar uma voz própria, que culminaria na transição para o “Mestro” (2004). Mas antes, em 2003, temos um capítulo importante na nossa história e que acredito ter sido definitivo para firmar a coisa toda até hoje. Em 2003, o Hurtmold tinha algumas músicas (que não eram para um disco, mas para um EP). E nessas pensamos em, de repente, fazer um split CD com alguma outra banda. Se não me engano, em 2000, o Mau passou um tempinho nos Estados Unidos e conheceu o pessoal do The Eternals, banda de ex-membros do Trenchmouth. O Mau me deu o toque que tinha visto o show do Eternals, que era foda. Eu conhecia o Trenchmouth, mas não os Eternals. Obviamente não tinha nada direito na internet que eu poderia ouvir e me lembro de imediatamente correr na Motor Music (loja/selo/produtora) de BH, comandada na época pelo Marcos Boffa e o Jeff Kaspar. Esses caras pra mim são um capítulo a parte em muita coisa que conheci/aprendi, sem contar o grande apoio que eles deram para a Submarine e aos artistas com os quais até hoje corro. Cheguei na Motor e encomendei o primeiro álbum cheio deles, o de capa vermelhinha, que saiu pela Desoto/Aesthetics, em 2000.

Claro, demorou pra chegar, mas como valeu a pena! Ouvi aquele disco e aí estava mais uma banda que fodeu minha cabeça. Beleza, passou aí um bom tempo, chegou a hora de definir esse novo lançamento do Hurtmold. O Eternals era o nome a ser sondado. Escrevi pra Aesthetics, selo que estava trabalhando com eles propondo e rapidamente retornaram positivamente! Esquema punk como sempre, músicas pra cá, uma quota de discos pra lá, uma graninha mínima de royalties e prensamos 1000 CDs split. Nessas pensamos num passo além: vamos trazer o Eternals pra tocar aqui no Brasil? Era algo difÍcil de se imaginar Ccomo fazer isso? Mais uma conversa com o Mau e o Guilherme e a coisa começou a se desenvolver. O Rodrigo Brandão (ex-Mamelo Sound System, produtor do Festival Indie Hip Hop e tantas outras produções responsa) acompanhava o Hurtmold de perto, ele conhecia a banda, os moleques e a Sub (mesmo não me conhecendo pessoalmente até então). Ele também curtia o The Eternals e nessas deu uma força e foi peça fundamental trazendo o trio para um show no SESC Pompeia. Daí este seria o show de lançamento do split Hurtmod/The Eternals em São Paulo. Ficou na nossa mão fazer o restante do corre que seriam shows em BH, Campinas e mais um extra em São Paulo no final. Tudo esquematizado, a coisa aconteceu, o Eternals veio, fizeram quatro shows junto com o Hurtmold, lançamos o split, fizemos a turnê e segui também com o Eternals a partir daí lançando discos deles, fazendo mais turnês pelo país e cultivando uma amizade muito classe com eles, que já passam aí dos 10 anos.

E nessa mesma turnê acontece um episódio que foi um dos mais marcantes na história toda. Na semana do show do Eternals/Hurtmold em BH, eu recebi um e-mail de um cara dizendo que era americano, mas tinha uma esposa brasileira e estava passando um tempo em Brasília. E que ele ficou sabendo que os Eternals iriam tocar em BH, que eles eram seus amigos e ele estava indo pra BH pra encontrá-los, ver os shows e nos conhecer também. Beleza, até que eu fui ver a assinatura do e-mail. “Rob Mazurek”. Lembro de ficar olhando pra tela do computador sem saber o que fazer, se eu ligava pro Mau e o Gui, se eu respondia o e-mail com meu “crazy english”, se eu deletava e fingia que não era comigo. Lembro de ter ficado bem descompensado. O Rob era uma figura muito marcante pra gente naqueles últimos anos. A gente acompanhava realmente de muito perto esse cenário de Chicago (Tortoise, Chicago Underground, Isotope 217, The Eternals). E era uma parada um tanto bizarra pra mim receber aquele e-mail, e numa situação dessas. A minha ideia do Rob era algo distante pessoalmente mas muito íntima musicalmente. Sei que respondi meio sucintamente o e-mail dele, algo do tipo “vai ser um prazer receber você, aqui está o endereço do hotel onde o Eternals ficará e nos vemos no sábado!”.

Chegou o sábado, Hurtmold e Eternals em BH, os encontrei levei os Eternals para o hotel, o Hurtmold ficou comigo de rolê e ainda iam gravar um videoclipe da “Telê”, som do Split, antes da passagem de som.

Daí me aparece o Rob, com a mesma expressão de sempre, uma espécie de geniosinho folião, extremamente doce e atencioso. Eu ali de ponta cabeça olhando pra ele, meio tentando cheirar o cara e pensando: “puta merda, taí o Rob Mazurek do Isotope/Chicago Underground”. Sei que foi uma noite absurdamente divertida. Os shows foram muito bons, público felizão, split saindo, e acho que definitivamente o Rob ficou meio impressionado com o que viu. Tipo, “nossa, e esses caras do Brasil fazendo o corre deles, sem papo furado, conhecem nossas coisas, dialogam com isso, celebram tudo, sobem no palco e mandam bala”. Sei que no dia seguinte recebi um telefonema dele, que possivelmente entendi 20% do que ele falou, lembro de agradecer e que a gente se encontraria. Desliguei com o coração a milhão e pensei: “Eternals, Rob Mazurek e Hurtmold, tudo em um sábado!”

A partir daí o Rob entra definitivamente na nossa vida, né? Começa a conversar com o Mau, com os moleques, mantem contato comigo. Ainda em 2003, o Hurtmold se apresenta em BH no Festival Eletronika, um dos melhores festivais do país, mais uma boa aparição da banda e ali começo a sentir que talvez São Paulo seja meu destino. E em 2003 ainda lançamos o primeiro disco solo do Mau, chamado “M.takara”. E me lembro de por telefone não convencê-lo exatamente, mas botar uma pilhinha nele pra apresentar ao vivo o set solo. E a primeira formação ao vivo do M.Takara era duo, ele e o Chankas. Shows com essa formação entre 2003-2005.

Depois disso, mais e mais shows do Hurtmold, vou pra São Paulo (são 11 anos já vivendo aqui), apresentação da banda no Sonar (SP e Barcelona), mais discos lançados, mais shows no exterior, discos do Hurtmold licenciados na Europa e Japão, trabalhos solo dos caras saindo, parcerias com o Marcelo Camelo (Los Hermanos) e Paulo Santos (Uakti). E assim seguimos juntos. Relação muito foda, amo eles. Histórias legais, muita coisa juntos. Lá se vão 16 anos.

E como acontece a escolha das bandas que fazem (ou farão) parte do selo?

Rodrigo, o critério é único. Se a música me causa algo. Nada além. E pra mim faz muita diferença se a banda tem um bom show e um bom trabalho de estúdio também. A coisa mais legal do mundo é ver um show foda, ouvir um disco que te zoa o “sótão”, né? Acho importante essas duas formas de expressar a música batendo forte. Obviamente é uma questão que está ligada à minha sensação ao ouvir e ver uma banda ao vivo. É abstrato, mas é a forma da Submarine de escolher um novo nome para o cast do selo. Agora, se o disco vai vender, se o público vai gostar ou não, se a crítica vai falar mal ou bem, aí já não sei. Mas eu sinceramente tenho muita alegria ao falar de qualquer um dos lançamentos do selo até hoje. Sempre estive pouco me lixando pra mercado, produtos, nem sei o que é isso.

Qual a estrutura física da Submarine Records? Há algum modelo de negócio específico e orçamento? Em suma, quanto custa manter o selo?

A Submarine sempre existiu num quarto. Um quarto, umas estantes para o estoque, envelopes, caixas de papelão, um computador, impressora e muita vontade de fazer as coisas. O “modelo de negócio” é ter palavra com os artistas “contratados”. Com eles não preciso de papel, assinatura, reconhecimento de firma em cartório pra cumprir com os acordos. Não prometo o que não posso cumprir e quem entra no cast do selo também sabe que a Sub é um selo independente, bem pequeno, e que não está muito preocupado com networking, politicagem, bajulação pra sair uma resenha sei lá onde e outros aspectos em torno de “business” (que passam longe da música que amo e acredito) e não me interessa mesmo. Claro, existe um mínimo para se fazer “negócios”, mas é uma etapa que sempre prefiro ser o mais “pá pum” possível, somente pra coisa funcionar objetivamente, sem muitas invenções.

O custo de ter um selo é o que eu tenho na minha vida, no meu dia a dia. A Submarine não é o meu emprego, eu vivo isso. Eu não fecho o computador, ou a porta e “até amanhã”. O selo está aqui dentro de mim, não é meu hobby, não sou vanguardista de fim de semana. Pra viver como eu vivo sei não, eu me entreguei a isso, abri mão de algumas coisas (que, supostamente, são “indispensáveis” no mundo moderno, mas nem são nada), instabilidade financeira, meses tranquilos, meses mais tensos, sobrevivendo e ciente da opção, do estilo de vida, da responsabilidade pelo que o que acontece. Não tiro férias do meu trampo, não existe isso.

Mas também nenhum dinheiro paga essa coisa de poder estar, sei lá, numa quarta feira, às 16h, por exemplo, com algum amigo caminhando pelas ruas trocando ideias, ouvindo, trocando energia onde você vive sua cidade, sem bater um cartão, por exemplo. Tenho um amor muito grande pelo que eu faço, pelo o que eu vivo e compartilho isso com algumas pessoas. Meu filho já está com 17 anos, ali com seu skate, curtindo um som, pirando em vídeo e já avançando pra vida adulta. É um ciclo, né.? Tá todo mundo aí vivão. Olho o Igor e me lembro quando eu tinha a idade dele. Nessas, acho também que meus pais entenderam que eu tomei um rumo que, de repente, não era o vislumbrado por eles há 20 anos (que, sei lá, seria seguir uma carreira, ter um emprego convencional, a tal “estabilidade”, garantias empregatícias, que é a referência que eles têm, ou pelo menos tinham, sobre como construir algo, viver, pagar as contas, garantir os filhos). E acredito que isso tenha mudado bastante os conceitos deles acerca de um modelo único e viável de se levar uma vida. E assim seguimos. Até onde vai durar, se para sempre, se acaba amanhã, vai saber. E cada vez mais pra mim, Rodrigo, o futuro é hoje, amanhã, sei lá, morre fica tudo aí.

Você atua também na Norópolis, que agencia shows. Como é esse trabalho?

Em 2006, eu saio da sociedade com o Fusco na loja Trezeta para me dedicar 100% ao selo e aos shows dos artistas da Submarine. Naquele momento tínhamos regularmente shows do Hurtmold acontecendo no circuito underground, e abrindo portas extra circuito independente, com apresentações em unidades do SESC, SESI, centros culturais, secretarias de Cultura, festivais maiores. M.Takara (até 2004/2005), o São Paulo Underground já estava rolando (o primeiro disco da Sub é de 2006), o The Eternals já tinha voltado em 2005 para shows no país e eu já preparava uma nova turnê pra 2007.

A Norópolis surge oficialmente em 2008, momento em que eu já atuava como produtor/agente de bandas do selo desde 2004. Naquele ano começou uma demanda real de shows para o Hurtmold e era necessário alguém cuidar disso. Tentamos por dois shows (risos) um agente de fora, mas não deu certo. Na verdade deu bem errado e ali eu senti que era a hora de eu me meter em mais essa, ser responsável por marcar os shows, organizar agenda. Com isso teríamos ainda mais controle sobre nossas atividades. Sobre a Norópolis tenho que “culpar”, no bom sentido, a Angela, que é parceira de anos na minha vida, na Sub, e que hoje comanda a Brava.

Eu era um pouco relutante em abrir o trabalho para bandas que não necessariamente eram do selo, eu tinha uma ideia meio pessimista de que não era a mesma coisa a relação e a amizade que eu tinha com o Hurtmold e satélites (Rob Mazurek, The Eternals etc) e obviamente eu não tinha mesmo, mas a Angela foi quem me fez, aos poucos, entender que ao nosso redor havia muitas outras bandas que gostávamos e por que não? A Nóropolis é um booking pra agendamento, venda de shows e divulgação das atividades de todos os artistas ali envolvidos e acho que a coisa funciona de uma forma decente. E nessas acabou que o Elma foi lançado posteriormente pela Submarine e o Objeto Amarelo também, em um registro colaborativo com o Rob Mazurek.

A Norópolis atualmente está com os artistas residentes: Hurtmold, Hurtmold & Paulo Santos (Uakti), Elma, São Paulo Underground, Bodes & Elefantes, Guilherme Granado, MDM, Chankas, Auto, Rob Mazurek e Objeto Amarelo. E tenho dois projetos especiais que são o M.Takara & Elma apresentam Corta como Gelo Torto e Elo da Corrente apresenta Missões de Pesquisas Folclóricas – Mário de Andrade.

Através da Norópolis tento ao máximo viabilizar shows para estes artistas em parceria com instituições sócio-culturais como o SESC SP, Centro Cultural São Paulo, MIS-SP, festivais espalhados pelo país e parcerias com alguns produtores em outros estados com os quais já desenvolvo atividades, confio e sempre abrem possibilidades de emendarmos datas de turnês em suas cidades ou shows avulsos.

E na paralela, cada artista/banda segue obviamente com sua dinâmica também, marcando outras coisas por si mesmos, shows menores, que não necessitam de uma produção e logística maiores. Daí cada artista vai no seu ritmo, dentro do que consideram bom ou não para eles e é isso.

E além dos residentes, a Norópolis está sempre trazendo ao Brasil um ou outro artista internacional que gostamos, que achamos relevante musicalmente e nos últimos anos tem sido muito legal nesse sentido também.

Quais os artistas internacionais que você mais se orgulha de ter trazido ao Brasil?

Com toda sinceridade, cada artista internacional que vem ao Brasil me traz uma emoção. Todos que vieram até hoje representaram momentos especiais, cada um da sua maneira, com a sua música, com sua personalidade. E eu nunca trouxe um artista internacional pelo simples fato de fazer um trabalho, isso não existe comigo. Eu só convido, contato, agito música que eu gosto, que me diz algo. Então The Eternals, Rob Mazurek, Roscoe Mitchell, Anthony Braxton, Tortoise, Pharoah Sanders, Matana Roberts, Kevin Drumm, Tim Kinsella, Laetitia Sadier, Phil Cohran, Lichens, Joan of Arc, Skull Sessions, Alan Bishop & Richard Bishop e vários outros shows que aconteceram, geram em mim um prazer imenso.

Há alguma história curiosa de bastidor de uma dessas turnês que possa ser contada aqui?

Vou contar duas. Quando o Pharoah Sanders veio, numa tarde, estava um calor violento em São Paulo e eu meio preocupado com ele, passei numa suqueria e comprei pra ele dois sucos naturais, feitos na hora (de melancia com gengibre e abacaxi com hortelã) e levei no hotel pra ele. Peguei o elevador com os sucos e quando fui bater na porta do quarto dele escutei um som de saxofone. Era o faraó praticando! Sem nem vacilar, sentei no chão com a cabeça encostada na porta, coloquei os copos de suco no colo e fiquei ali quietinho ouvindo ele tocar. Foi de arrepiar, por que fiquei ali absorvendo aquele “show particular” e pensando pra caramba como essa geração era/é cabulosa, né? Acredito que ele tenha tocado uns 20 minutos ali. De repente parou, ouvi uns passos e senti que era o momento então de eu bater na porta pra entregar os sucos. Bati, ele abriu com aquele sorriso brilhante dele, ofereci o suco, ele já me chamou pra sentar e beber com ele. Ficamos ali um tempo, ele curtindo o gengibre, a melancia e depois saí com aquele “set” do Pharoah Sanders ao vivo no quarto do hotel na minha cabeça e coração pra sempre.

Uma outra aconteceu quando veio o Sun Rooms, trio do vibrafonista Jason Adasiewicz. Eu aluguei um vibrafone para os shows e beleza. Eu já tinha contato com o Jason, visto ele ao vivo em ação três vezes e é muita treta ele tocando, muita intensidade. Terminados os shows, fui devolver o vibrafone para a locadora e, cara, quando olhei o vibrafone me deu uma vontade imensa de dar gargalhada e ao mesmo tempo eu fiquei muito nervoso. O vibrafone estava com várias teclas empenadas, as cordinhas todas estouradas (risos). Pensei: “fodeu, vou ter que pagar um vibrafone pra locadora!”.

A locadora virou pra mim e falou: “Fred, nunca vi isso antes na minha vida, mas tudo bem dessa vez, pois no valor da locação está incluso a substituição dessas teclas danificadas e as cordinhas. Além do mais você sempre aluga o vibrafone para o Hurtmold, é um cliente constante etc”. Saí de lá aliviado, mas depois disso sempre que alugo vibrafone com esse pessoal eles me perguntam “é para o Jason?”. E são risos gerais (ainda bem).

Seja no papel de fanzineiro, dono de selo ou agente de bandas, você acompanha a cena independente brasileira desde os anos 1990. Quais são as diferenças e similaridades entre aquele cenário e o atual?

É uma pergunta ampla, boa e que eu possivelmente levaria umas boas horas conversando com você a respeito, por que você também viveu intensamente os anos 1990 e ainda é de uma geração mais velha que a minha. Mas vou tentar colocar somente alguns pontos aqui pra, pelo menos, ilustrar um pouco minhas sensações. E talvez não chegássemos a nenhuma conclusão (risos).

Com relação a similaridades, eu acredito que a estrutura, mentalidade do lado de quem tem os espaços no circuito underground de casas de show continua muito a mesma coisa que sempre foi em mais de 90% dos casos. Obviamente há exceções.

Até hoje não entendo essa ideia de que a casa de show tem que “morder” metade de uma bilheteria da banda que toca lá, por exemplo. Sendo que essas casas vendem bebidas a um preço altíssimo, faturam alto no bar e boa parte delas conta com uma infra bem lixo para shows. Atualmente, pelo menos por mim aqui, agendo poucos shows em casas noturnas, por que é muito ridículo você passar por uma situação de ouvir ou sentir da parte de lá um certo “olha, estamos fazendo um favor pra você”, essas coisas. Bom, abre sua casa (de show) ali numa sexta à noite sem uma atração e vamos ver quem entra lá. Fora que se, por exemplo, o ingresso custasse 10 ou 12 reais. A bilheteria fosse para a banda e o bar, do pico, lotaria (pelo preço legal do ingresso) e mais gente consumiria as bebidas. E OK, pode até ser destinado uma parte da bilheteria para a casa, mas poderia ser 25% de repente (como já fiz por aí) e é uma soma que cobre já tudo ou grande parte dos custos para essa casa abrir (segurança, portaria, barman, etc…), até por que não fazemos shows em casas gigantes.

Bom, este é um ponto, acho que mudou praticamente nada nesse sentido em relação aos anos 1990. mas repito, ok? Há exceções.

Normalmente quando é legal, mais justo, são em locais onde os donos dos picos gostam de música, possuem uma afinidade com as bandas. E isso tem até rolado mais nos últimos anos, pequenos espaços que não necessariamente são casas de show, com pessoas mais próximas ao meio musical no comando ali, e é muito bom isso.

No nosso caso, dependendo do artista a gente fecha um cachê fixo, ou discute a respeito de uma porcentagem maior de bilheteria e, claro, algumas dessas vezes não rolam os shows também obviamente (risos).

Por outro lado, com o passar dos anos, várias instituições de cultura começaram a abrir portas para a música independente. Hoje existe um fluxo enorme de programação musical para muitas bandas alternativas além do circuito underground. E isso foi um trabalho de formiguinha feito por uma turma ao longo dos anos. O trabalho de colar nesses lugares com os CDs, releases, bater na porta, ser esnobado várias vezes (eu pelo menos tomei boas portadas na cara no inicio doas anos 2000 vendo meus CDs indo pra gaveta quase que instantaneamente) até que um dia um programador resolve ouvir, gosta, fala com um outro e, de repente, você começa a ser sondado. E também pelo fato de alguns desses lugares começarem a contratar uma turma mais jovem ou mais interessada em música para trabalharem nessas áreas de programação musical e essas pessoas, por sua vez, tinham hábito de ir a shows independentes, conhecerem um pouco mais do que somente os artistas mais populares e/ou em voga na mídia maior.

Hoje já fazemos parte de um calendário, pauta de vários desses lugares, pois a turma aqui está sempre em atividade, tocando e tocando.

E é uma parceria muito boa, pois estes locais te dão estrutura pra fazer um bom show, conforto para o público, ingressos baratos e em contrapartida essas bandas levam um público que antes não iam com frequência nesses lugares. Existe aí uma energia nova circulando. Daí é sempre buscar o balanceamento e tentar fazer o máximo de coisas possível. Ontem mesmo colei num show solo do Guilherme Granado (Hurtmold, SPU, Bodes & Elefantes), numa residência que ele faz toda quarta feira na Hotel Tee´s, em São Paulo. O cara tá ali, toda semana com seu equipo, indo e vindo, desenvolvendo ideias e isso vai gerando um frescor, um movimento.

Nos anos 1990, até meio dos 2000, havia também um outro tipo de cenário no meu modo de ver. O público tinha um apetite, uma curiosidade maior, né? Iam nos shows pra ver a banda mesmo, consumiam a música ali na hora. Cara, a gente vendia discos em shows a valer, eu posso falar, faço banquinha há 16 anos! (risos). Carreguei muita caixa de CDs, compactos, cassetes em shows que acabavam ali às três horas da manhã. As pessoas loucas no pico depois do show, mas com um CD ali meio caindo do bolso com elas.

Não era como você dar um clique e em duas horas virar um “especialista” em tal banda, tal cenário etc. A internet mudou essa dinâmica, acho. Creio que esse fator conta muito ao observarmos o público mais jovem que consome música hoje. E rola paralelamente uma confusão bizarra na cabeça dos equivocados (falo até mais de gente da nossa idade, da nossa idade, geração, no caso) que acham que redes sociais como o Facebook são parâmetros muito confiáveis para alguma coisa nesse assunto. Eu acho que não. Os “likers” não são um público real, eles são do mundo do Facebook, onde levam uma vida internética, instantânea. Todo mundo é “pá” ali atrás do teclado. Todo mundo está feliz sempre, é perfeito, ninguém vota no [Geraldo] Alckmin, todo mundo pira na banda, o evento do “face” tem 300 “confirmados”, mas na hora do show, tem 30. Eu sinto essa diferença entre o ontem e o hoje. Era muito outra relação com som, show, discos. Ainda vendemos discos hoje em dia, menos que o que se vendia há 10 anos, mas a quantidade maior dessas vendas continua com as bandas que criaram uma memória ali nos anos 1990, 2000, sem a dependência ou obsessão pela internet. O Hurtmold continua com seu público, e, o melhor, se renovando. Achei muito legal no último show deles em São Paulo observar uma fatia bem jovem na audiência. Acredito que tenha a ver com essa memória da qual falei e beleza, somado a internet, mas sem “martelação”. O Hurtmold é uma banda zero internet, né? O que tem sou eu ali fazendo uns posts (e daquele meu jeito ainda) e um ou outro da banda publicando um pouco. Assim como. por exemplo, o The Eternals. Eles são uma banda hoje pouco ativa, mas estão no HD das pessoas pelo que rolou há 10anos aqui e essas pessoas passam pra frente a informação. E os Eternals vindo tocar, a gente pode saber que os caras vão chegar aqui com aquele frescor de sempre e apavorar ao vivo. Não tem alegoria, é o som ali e nada mais.

É louco eu ouvir alguém falando que pira em música, mas daí ela não gasta com música, por que ela supostamente acha vantajoso baixar o disco por aí de graça. Acho beleza baixar, mas tendo uma oportunidade (já que você pira em som, fala tanto na internet) por que não comprar um disco por 10, 15 reais e apoiar a banda, o selo que você tanto “curte”? Não podemos esquecer que o cara vai ali, compõe, grava (tanto faz se é num estúdio ou na casa dele), o selo prensa ou o artista edita seu próprio registro. Este músico está trabalhando, desenvolvendo ideias, criando e possivelmente vai entreter você, te causar um puta bem estar por horas, dias, ou pela vida toda. E em troca, você não cola no show, não compra o disco e ajuda um pouco mais pra coisa ficar ali no mundinho virtual apenas, nos blablablás de internet, ouvindo discos baixados no lap top. As famosas “melhores bandas da última semana”. No fim, tudo se resume a isso, uma saraivada de posts e ninguém ouve é porra nenhuma.

Tenha em mente que não é real o apoio somente dando um “curtir” ou “confirmando presença” num evento de Facebook e não comparecendo realmente, não participando.

Rodrigo, essa conversa vai longe, poderíamos ficar horas falando a respeito, mas coloquei aqui só umas ideias que podem ser pensadas, refletidas (ou não também), apoiadas ou totalmente discordadas, até por que pode ser que eu esteja viajando geral, mas são algumas impressões que eu tenho.

Sem contar que com a internet quanto “artista” surge por minuto, né? Não estou falando de música produzida, mas da categorização mesmo, de qualquer coisa hoje ser um artista, “calma gente”, vamos respirar. Artistas e arteiros são coisas bem diferentes também. Acho que falta uma filtragem muitas vezes. Se a gente parar, ler um post, contar até 10, com certeza muito lixo é descartado, mas se você vai lá, lê, já reage “por que tem que dar opinião em tudo”, a própria internet se encarrega de te mandar mais uma tonelada de lixo quando você se conectar novamente.

E no mesmo canal, a internet é uma das coisas mais foda e fascinantes que existe, né!? Poxa, como o YouTube é foda, por exemplo (risos). Então, é tentar equilibrar as coisas (pra variar).

Outra questão legal também de se observar, é que a música independente, cenário underground nos anos 1990, era coberta pelos fanzines, que eram publicações (sem nenhuma perfumaria) que tinham como objetivo informar, propagar o que estava rolando. Entrevistas com bandas, resenhas de demos, cassetes, vinis, CDs, uns tipos de classificados com vários outros flyers ali impressos pra você ir atrás de outras bandas, selos, zines. Era a imprensa realmente especializada. Tinham muitos, mas muitos zines no Brasil (e no mundo obviamente). Atualmente existem alguns guerreiros que mantém a chama dos zines de música, artes, contra cultura, sociopolítica acesa. Mas grande parte dessa produção migrou para a internet e está nos vários blogs, fóruns e os considero bastante, acho muito classe as pessoas realmente usarem a ferramenta de uma forma legal. Resenham, entrevistam, trocam ideias, propagam links. Não tem jabá, né? E muitos deles nem recebem material físico, ouvem o disco via link, baixam a capa e mandam bala. Isso ajuda bastante na parte informativa da coisa toda. Fora que eu vejo muitos desses blogueiros, e-zineiros na rua, nos shows, compram discos, muito classe.

Bom, acho que deu pra eu falar um pouquinho. E obviamente não necessariamente todas essas ideias que lancei aqui são compactuadas por bandas do selo e amigos, repito, são visões e sensações minhas nessa resposta, certo?

Quais são os próximos passos da Submarine e da Norópolis?

Vamos lá, tem coisa! Submarine: O próximo lançamento é o vinil 12” do Auto chamado Crossfire, que está saindo da fábrica e teremos lançamento e shows pontuais neste último trimestre do ano. Na sequência, estão previstos o split LP Tim Kinsella & Guilherme Granado, o vinil 7” do Elma (que será dividido com mais três outros selos: Brava, 255 Records e Cospe Fogo), a edição em vinil do “Mestro”, do Hurtmold (que neste ano de 2014 está completando 10 anos que foi lançado) e ainda materiais do Spectrazil (grupo formado pela dupla Dan Bitney e a artista visual Selina Trepp + Mauricio Takara, Guilherme Granado e Carlos Issa. O Dan está mixando neste exato momento). E estou aguardando uma definição de um selo americano se lançaremos juntos o disco “Espiritu Zombi”, do The Eternals, que é uma suite em que a banda conta com mais sete músicos além do trio. É mais um belo registro deles, com arranjos envolvendo mais cordas, sopros, o Jason Adasiewicz no vibrafone, Matt Lux tocando baixo, muito bom.

Norópolis: Continuar nas escavações, né? Buscando mais shows para os nossos residentes e já começando a traçar os planos de atrações internacionais para o ano que vem.

Sites relacionados:

Conheça os discos lançados pela Submarine Records aqui.

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